27/08/2006 - O ESTADO DE SÃO PAULO

A mistura entre o religioso e a vontade política nunca deu bons resultados. Aliás, a simples permissão para que o dogma, o indiscutível, invada a História, sempre pavimentou caminhos perigosos. Este alerta não é novo, mas o professor Denis Lerrer Rosenfield fez dele “ferramenta” para analisar o momento político brasileiro. Ele retoma a análise de Carl Schmitt sobre o conceito de teológico-político, quando a Salvação deixa de ser pensada como “despojamento moral” (na busca da absolvição na vida eterna) e passa a significar um projeto político para concretizar o Reino de Deus na Terra. Em política, esta sempre foi a pior escolha.

O professor da Universidade Federal do Rio Grande do Sul vê na trajetória do PT e de seus braços políticos, o MST por exemplo, o risco de tratar o cotidiano da política como verdade religiosa. Este é o tema do livro de Rosenfield, A Democracia Ameaçada - O MST, o Teológico-Político e a Liberdade, publicado pela TopBooks e pelo Instituto Tancredo Neves. O professor não esconde sua concordância com Raymond Aron de que o “cerne da cultura ocidental” está na idéia de liberdade, que não é só sufrágio universal, “instituição tardia no Ocidente”. Na visão do autor de O Ópio dos Intelectuais, liberdade é direito de crítica e pesquisa, limitação da autoridade estatal e, principalmente, “dualidade entre o poder religioso e temporal”. Este é o ponto central da argumentação de Rosenfield. Institucionalizar esta separação não significa apenas escrever na Constituição que o poder é laico. Apelo religioso em política tem um sentido maior que o mero risco da teocracia. A rigor, Rosenfield lembra do conflito entre a “fé” de Sartre e a “dúvida” de Aron, enfrentando a crença do primeiro nas ações dos partidos “de esquerda”. As perguntas de Rosenfield são incisivas: se um partido se diz “dos trabalhadores”, o que isto quer dizer? Só funcionários “manuais”? E os que ganham salários maiores, ou os desempregados?

O autor investe forte contra a lógica da “representação auto-outorgada” de falar pelos excluídos. Porém, o teológico-político do MST é sua maior preocupação. Para o professor, na perspectiva da Comissão Pastoral da Terra e do MST, o capitalismo é o “pecado” e qualquer política de mercado no campo brasileiro contém esta “mácula”.

Rosenfield observa a galeria de heróis do MST e encontra uma “estética teológica da violência”. Guerrilheiros ganham traços religiosos e toda violência no campo acaba revestida de um certo “ludismo agrícola”. Porém, é na análise dos “cantos” do MST que o autor identifica os riscos maiores da “estética da violência”. O texto também denuncia a opressão contra os próprios integrantes do movimento: nos acampamentos, por exemplo, só a liderança pode ter celular. E, ao contrário de outros lugares, a proibição é cumprida.

As Diretrizes do Governo do PT (dezembro de 2001) e a Carta aos Brasileiros (junho de 2002) também são avaliadas. Retomando Castoriadis, Rosenfield utiliza o conceito de “imaginário” para analisar as “idéias” do partido político, insistindo que no PT a distinção entre partido e Estado foi suprimida desde 2001. Ele lembrou que certos tiques totalitários, como a formação de um Conselho de Comunicação Social, que depois se transformou em Conselho Federal de Jornalismo, estavam presentes desde aquela data.

Neste tom, ele lembra da “servidão voluntária” que marcou a intelectualidade do século XX, quando a verdade “sumia” porque o importante era a defesa da “causa”. De fato, esta vitória do “teológico-político” já causou danos suficientes. E não só no Brasil. Sem nenhuma dúvida.

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